Migonianas: As escolas de samba e o futebol - algumas correlações - ou não







Apaixonado que é por carnaval, Pedro Migão, que assina essa coluna no Primeiro Penta, fala sobre as escolas de samba e o futebol, exemplificando e explicação a relação (ou não) entre eles.

Vamos ao texto...

Pedro na Portela

O leitor deve estar estranhando o título e a foto, mas a ideia é justamente esta: causar estranhamento. Afinal de contas, o leitor mais ligado em futebol deve imaginar que todo rubro negro é mangueirense, não é mesmo? Como este blogueiro torce pela Portela?

Pois é, caro acompanhante deste blog: não há correlação entre torcidas de futebol e torcidas por escolas de samba "stricto sensu". Ao contrário, a forma de determinação (em média) é totalmente diferente, não havendo muita influência da torcida por uma equipe de futebol e por escolas de samba. Fique claro que me refiro ao Rio de Janeiro, pois São Paulo há a diferença das torcidas organizadas que viraram escola de samba, que abordarei no decorrer deste post.

Normalmente a torcida por um clube de futebol, via de regra, tem três grandes influências: a familiar (principal), a fase do time em questão e a dos colegas de infância. Estudos indicam que somente por volta de sete, oito anos de idade é que a preferência por uma equipe se consolida.

Eu mesmo venho de uma família rubro negra - apesar de avô tricolor - e peguei quando criança e início da adolescência a Era Zico, das maiores conquistas do clube. Ficou fácil ser Flamengo. Por outro lado tenho um primo que, apesar de minha (hoje falecida) tia ser fanática rubro negra acabou se tornando vascaíno, pois sua infância ao mesmo tempo encontrou uma fase horrorosa do Flamengo e o maior título alvinegro - a Libertadores de 98.

O leitor há de se perguntar: e isso funciona também para as escolas de samba? Via de regra, diria que não.

A maior influência para a definição por uma escola de samba "do coração", em média, é a geográfica. Especialmente o carioca - isso não vale muito para outros estados - tende a torcer pela agremiação próxima do local onde nasceu, foi criado ou mora. A Zona Sul, que não tem uma agremiação especificamente forte - a própria São Clemente, que tem origem em Botafogo, hoje ensaia no Centro - acabou adotando a Portela anteriormente e hoje ainda a Águia e a Beija Flor.

Os resultados também influenciam. A última pesquisa sobre torcidas que encontrei disponível, de 2008, indicava que a Beija Flor - que vinha naquele momento de cinco títulos em seis anos, 2003/04/05/07/08 - era a maior torcida no chamado "Grande Rio", ou seja, a cidade do Rio de Janeiro e Baixada Fluminense. Isso se explica facilmente pela fase da agremiação nos anos imediatamente anteriores à pesquisa, bem como de sua predominância na Baixada.

Entretanto a escola de Nilópolis, naquele momento, era a segunda torcida na cidade do Rio de Janeiro, atrás apenas da Mangueira. Os dados são de novembro de 2008 e foram fornecidos pelo Instituto GPP:

- Mangueira: 15,7%

- Beija Flor: 11,5%

- Portela: 11,2%

- Mocidade: 11%

- Salgueiro: 8,7%

- Imperatriz: 3,5%

- Império Serrano: 2,7%

- Vila Isabel: 2%

- Grande Rio: 0,9%

- nenhuma escola: 29,5%

Note o leitor um dado interessante: a quantidade de pessoas que declaram não possuir nenhuma escola de samba do coração, cerca de 30%. Isto é reflexo direto da perda do interesse verificado nos últimos anos.

Grosso modo, pode-se dizer que a Mangueira concentra parte significativa de sua torcida na região central da cidade, a Portela nos subúrbios da Central, a Mocidade na Zona Oeste e o Salgueiro na região da Tijuca - com a Beija Flor penetrando em todos os nichos. Entretanto, isto não é monolítico - além disso minha percepção indicaria que a torcida da Beija Flor, pelo menos na cidade do Rio, já foi superada de novo pela Portela. Além de imaginar que a Unidos da Tijuca, embalada pelos dois títulos recentes e pela preferência nítida dos homossexuais (basta ir à sua quadra) tenha saído do "traço" em termos de torcida.

Sobre a Tijuca, a tentativa ocorrida no final da década de 90 e início deste terceiro milênio de se vincular em termos de torcida ao Vasco da Gama acabou se revelando inócua, até porque esta correlação entre clubes de futebol e escolas de samba historicamente nunca foi bem vista pelos mandatários do samba carioca. Por isso, aliás, que nunca prosperaram as tentativas de se repetir o modelo paulista de torcidas organizadas formando escolas de samba.

A Portela é um caso interessante. Historicamente sua torcida é formada por dois grandes grupos: pela sua área de influência (Madureira galvaniza a seu redor vários subúrbios cortados pela linha do trem) e por um público da Zona Sul atraído pelos ensaios realizados na década de 70 no Mourisco, antiga sede do Botafogo no bairro do mesmo nome - e, aliás, o leitor entende agora a correlação entre a Águia e o clube alvinegro.

Mas, recentemente, apesar do longo jejum de títulos, a sua torcida vem se renovando baseada especialmente na garotada que descobre o samba através da Velha Guarda Show da escola e que por afinidade acaba se descobrindo torcedora da escola. Simultaneamente os portelenses da área de influência original vem tendo bastante sucesso na tarefa de passar o sangue azul a seus descendentes.

Eu mesmo me tornei portelense por ter sido nascido e criado em Cascadura, pertinho de Madureira. Embora tenha demorado a me definir por uma escola, só poderia ser portelense ou imperiano.

Outra diferença em relação ao futebol é que o fenômeno do "vira casaca" é mais comum - e menos execrado - que o futebol. Tenho um caso destes na minha família: meu irmão caçula, que era Mocidade e se tornou União da Ilha.

Também o amor pelas escolas de samba é menos "monogâmico", por assim dizer. Temos a nossa escola de coração mas muitas pessoas tem simpatias por outras escolas, desfilando nelas e tendo um pedacinho do coração ocupado. Costumo dizer, brincando, que a Portela é a minha "esposa" e a União da Ilha (agremiação do bairro onde resido atualmente e onde fui bem recebido pelas pessoas) minha "amante" em termos de carnaval. Com outras pessoas que conheço ocorre o mesmo.

Pedro na União da Ilha

É impensável um rubro negro dizer que tem simpatia pelo Vasco, por exemplo. É outra diferença significativa - embora o deslocamento da rivalidade regional para níveis nacionais comece a mudar isso timidamente.

Contudo, o leitor já deve ter percebido que, pelo menos no Rio de Janeiro, o fato de alguém ser rubro negro não significa ser mangueirense. Há rubro negros que torcem por todas as escolas, e até por nenhuma.

Aproveito para falar rapidamente dos enredos cariocas que abordaram clubes de futebol. O rubro negro deve se lembrar da homenagem prestada pela Estácio de Sá no ano do centenário do clube (1995), mas saiba que o "Mais Querido" outras duas vezes foi enredo nos chamados grupos de acesso" do carnaval carioca: em 1974 no antigo Grupo 3 pelo Arrastão de Cascadura (8º lugar) e em 1990 na Difícil é o Nome de Pilares, obtendo o 3º lugar no então Grupo C, quarto grupo.

Inclusive o Arrastão de Cascadura originalmente tinha as cores vermelha e preta em homenagem ao clube. Depois é que houve a troca para o verde e branco da madrinha Império Serrano, pois naqueles tempos (década de setenta) as fantasias tinham de ser em sua maioria nas cores da escola. Hoje a única escola de samba rubro negra (na verdade forçando um pouco, pois a escola é vermelha, preta e branca) é o Boi da Ilha do Governador.


O desfile da Estácio de Sá (acima) foi o último bom momento da agremiação no Grupo Especial, pois já vivia uma grande crise. Apesar de um samba mediano - que hoje é muito pouco cantado nas arquibancadas, porque não é bom - e dos problemas internos a escola ainda salvou um sétimo lugar entre 18 agremiações. Além disso a ajuda prometida pelo clube na figura do então presidente Kleber Leite não se concretizou, o que dificultou ainda mais a preparação da escola para o desfile.

Outros clubes homenageados foram o Vasco da Gama, em 1998 (vídeo ao final do artigo) no Grupo Especial, o Fluminense pela Acadêmicos da Rocinha em 2003 no Acesso A - comemorando o centenário do clube com um ano de atraso e um quase rebaixamento ao terceiro grupo - e o América pela Unidos da Ponte no Acesso B em 2004, obtendo o quinto lugar.

Obviamente que o rebaixamento da Unidos da Tijuca no ano em que comemorou o centenário do Vasco da Gama é uma deliciosa piada para nós rubro negros, mas tenho de ser justo e reconhecer que o rebaixamento foi muito mais devido a fatores políticos (o então dirigente Eurico Miranda tentando influir na entidade que comanda as escolas) que pelo desfile em si, que não foi nada demais - mas não merecedor do descenso.

Finalizo afirmando que em São Paulo o caso é um pouco diferente, pelo fato de haver três agremiações ligadas a torcidas organizadas no Grupo Especial e outras nos grupos de Acesso. A ligação entre futebol e carnaval é bem mais evidente, o que gera situações engraçadas até. Na Gaviões da Fiel não há fantasias ou alegorias verdes, cor do Palmeiras (nem na quadra se pode entrar vestindo a cor). Pois é, no ano em que a escola falou das regiões brasileiras a Amazônia era inteirinha... em azul. Pode?

No carnaval pode tudo.


Texto escrito pelo Pedro Migão.

Visite o blog dele.

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