Migonianas: O Humor Politicamente Incorreto dos Estádios











Antes de iniciar este post, um aviso: ele contém alguns palavrões em seu decorrer. Logo o leitor entenderá.
Estava conversando semana passada pelo Twitter com alguns amigos jornalistas e vínhamos lamentando o fim da picardia e do humor nos estádios brasileiros. Como reflexo desta onda de moralismo hipócrita que grassa em nossa sociedade, os estádios hoje em dia vem perdendo este componente de provocação saudável e sadia.
Desde que o mundo é mundo que as torcidas se provocam. Às vezes com bom humor, às vezes resvaalando no preconceito, às vezes com puro humor negro, este jogo de criatividade vindo das arquibancadas era um charme a mais no espetáculo chamado "jogo de futebol".
Evidente que a linha entre a picardia e o preconceito é bem tênue, mas nunca vimos qualquer comportamento realmente ofensivo, como observamos, por exemplo, com as bananas atiradas para jogadores negros na Europa. Ali sim é um comportamento que representa um comportamento de classe: o sujeito não vai para o estádio provocar o time adversário, mas sim para expressar um (duvidoso) sentimento de classe.
Obviamente o estádio de futebol é um microcosmo da sociedade. A partir do momento que o politicamente correto - e a consequente hipocrisia - se tornam dominantes, este microcosmo reflete as mudanças na sociedade e se transforma a fim de ser socialmente "aceito". Aliás, não me parece coincidência este novo conservadorismo vir a reboque do crescimento da influência das seitas neo pentecostais evangélicas na sociedade brasileira.
Além disso estamos assistindo a um fenômeno de "normatização" do torcer por parte de autoridades que, ao que parece, nunca entraram em um estádio de futebol. Não pode beber cerveja, em certos estados não pode levar bandeira, clássicos com torcida única, não pode xingar, não pode pular... Ou seja: muito do encanto se perdeu.
Outro fator pode explicar este fenômeno: a tentativa de elitização do público. Tal como o feito em países como a Inglaterra, busca-se substituir o público mais popular por um de maior poder aquisitivo, que possa consumir mais - e ao mesmo tempo, mais frio. A recém empossada diretoria do Flamengo, por exemplo, é uma que declaradamente está iniciando este processo - neste caso há fatores específicos de classe e uma certa segregação, mas este é tema para outro artigo.
Este "novo público" rentabiliza melhor as novíssimas arenas e é mais "comportado" na forma de torcer, mas traz uma frieza que não coaduna com o espetáculo. Um dos atrativos de um estádio de futebol é a atmosfera que o cerca, e a estratégia de dirigentes esportivos e políticos é acabar com esta em nome de uma duvidosa "rentabilidade" e "segurança".
Basta dizer que na Inglaterra, onde o preço dos ingressos sextuplicou nas últimas duas décadas, ainda existem normas mais rígidas - em certos estádios se levantar para comemorar um gol ou homenagear a mãezinha do árbitro pode implicar em ser convidao a se retirar do recinto. Não vai demorar muito para isso se repetir aqui.
Ou seja, querem transformar o jogo de futebol em uma ópera.
Antes que isso aconteça, quero registrar neste post algumas das musiquinhas mais politicamente incorretas da história. Certo que o Rio de Janeiro é o alvo, porque frequento - hoje, nem tanto - os estádios daqui. Mas o leitor pode colocar sugestões na área de comentários. Divido em dois grupos, as "históricas" ou "gerais" e as específicas para certos acontecimentos.
Históricas e Gerais
Aqui relembro aquelas musiquinhas provocativas que estão na memória afetiva dos torcedores desde cedo.  São coros como "ela, ela, ela, silêncio na favela" para nós rubro negros, o "camisa feia / cheia de cor/ todo viado que eu conheço é tricolor" para os torcedores do Fluminense e coisas correlatas. Ou o "um, dois, três / quatro, cinco, mil / eu quero que o [nome do time] vá pra puta que o pariu" também desde priscas eras, que servia para qualquer equipe. Ainda o "rema, rema, rema, remador", que era outro exemplo.
Recentemente algumas novas provocações destas surgiram direcionadas a diversos times. Duas delas, das mais engraçadas, são direcionadas à torcida do Botafogo:
"Ei, cadê você
Cadê você, Cadê Você
Ihhhhhhh, no maraca eu nunca vi
No engenhão nunca tá lá
Os jogadores todos choram
Não tem torcida pra apoiar
Ei, cadê você
Cadê você, cadê você
Ihhhhhhhh, lá no Maraca eu nunca vi
No engenhão nunca tá lá
Os jogadores todos choram
Não tem torcida pra apoiar!"
Esta (vídeo no alto do post) foi criada pela torcida do Flamengo e depois adotada pelos outros rivais. Ironiza o baixíssimo público das partidas do alvinegro do Engenhão. Outra ironia a uma característica botafoguense (a mania de reclamar de tudo) surgira um ano antes, também da lavra da torcida rubro negra:
"E ninguém cala esse chororo
Chora o presidente,
Chora o time inteiro,
Chora o torcedor...
E ninguém cala esse chororo
Chora o presidente,
Chora o time inteiro,
Chora o torcedor..."
Uma que eu não conhecia e que me foi indicada por alguns tricolores está no ritmo de "La Bamba":
"Eu não sou rubro-negro
Eu não sou rubro-negro
Eu não sou ladrão,
Não sou ladrão, não sou ladrão
Dá-lhe NENSE
Dá-lhe NENSE
Dá-lhe NENSE
Eu não sou vascaíno
Eu não sou vascaíno
Eu não vendo pão,
Não vendo pão,
Não vendo pão,
Dá-lhe NENSE
Dá-lhe NENSE
Dá-lhe NENSE
Eu não sou botafogo,
Eu não sou botafogo,
Eu não sou chorão,
Não sou chorão,
Não sou chorão,
Dá-lhe NENSE
Dá-lhe NENSE
Dá-lhe NENSE"

Para os vascaínos, basta uma frase para tirá-los do sério: "ôôôôôôôôô, vice de novo!"

Específicos
Aqui temos aqueles coros que foram cantados em ocasiões específicas ou direcionados a um jogador em especial. Dentro desta, uma sub categoria: "Humor Negro".
Nesta subcategoria o primeiro registro, que eu me lembre, foi a torcida do Vasco lembrando dos mortos na queda do alambrado do Maracanã em 92. Não me lembro exatamente dos versos, mas fazia esta ironia. 
Em 1994 fomos à forra. No domingo seguinte à morte do jogador Denner haveria um Flamengo e Vasco pela fase final do Estadual, e a torcida do Flamengo, embora tenha aplaudido o jogador, não perdeu a chance de desestabilizar os vascaínos e o outro atacante cruzmaltino, Valdir:
"Ei, você aí, o Dener já morreu / só falta o Valdir"
A outra - que tinha uma segunda parte da qual não me lembro:
"Ô vascaíno porque estás tão triste
mas o que foi que te aconteceu 
foi o Dener que bateu na árvore 
quebrou o pescoço 
e depois morreu"
Todo mundo - eu inclusive - cantou as musiquinhas a todo pulmão. Nosso time era mais fraco, mas aquela foi a única derrota vascaína naquele campeonato que eles conquistaram. Guerra psicológica, caro leitor...
Outra nesta linha foi quando o jogador Edmundo - que respondia a processo por ter se envolvido em acidente de trânsito, com três mortes - retornou ao Vasco em 1999. Na decisão da Taça Guanabara daquele ano seu nome foi anunciado e ocorreu algo absolutamente espontâneo da gente (eu também estava no estádio): a torcida do Vasco cantou "Ah, é Edmundo!" e a resposta veio na lata, calando o outro lado:
"Ah, é assassino! Ah, é assassino!"
Isso virou uma marca a acompanhar o polêmico jogador em todos os estádios do Brasil.
A série "personagens", obviamente, abre com o ex-Presidente do Vasco Eurico Miranda, "homenageado" mais uma vez pelos rubro negros após os dois vices campeonatos mundiais:
"VTNC Eurico
VTNC Eurico
Sou campeão do mundo
Você não conseguiu
E o Vasco foi para a puta que o pariu!"
Antes disso os vascaínos ironizaram o time do centenário rubro negro com uma paródia - engraçada, admito - de um comercial da hoje finada cia aérea Varig:
"Pior ataque do mundo, pior ataque do mundo / para um pouquinho, perde um golzinho / pior ataque do mundo".
O então goleiro do Flamengo Júlio Cesar também foi "homenageado" pela torcida do Fluminense com uma paródia em referência ao fato dele ter se casado com a ex-namorada do jogador Ronaldo Fenômeno:
"O Julio Cesar, cumequié
O Ronaldinho já comeu a sua mulher"
Posteriormente o próprio Ronaldo, jogando no Corínthians, foi novamente provocado pelos tricolores, em uma paródia engraçadíssima aludindo ao episódio onde ele foi pego com três travestis:
"Boi, boi, boi
boi da cara preta
pega o Ronaldo
que tem medo de buceta"
Um pouco antes, em 2007, a torcida rubro negra, matreira, se utilizou de dois jogadores - um deles supostamente homossexual - para desestabilizar o time são paulino campeão com apenas 16 gols sofridos em 38 jogos:
"E no São Paulo só tem viado
O Aloisio come o Richarlyssonnnnn..."
Deu certo na ocasião: Flamengo 1 a 0 quebrando 18 jogos de invencibilidade da equipe paulista.
Também são comuns as provocações envolvendo rivais que foram para a segunda ou terceira divisão. Aliás, neste 2013 os corintianos podem ressuscitar cântico de 2003, quando Palmeiras e Mancha Verde estavam na segundona respectivamente no futebol e no samba: 

"porra, que legal / segunda divisão / futebol e carnaval!"
Retomando o argumento do início do post, vale lembrar que a recente prisão do goleiro Bruno - que está sendo julgado nesta semana - não gerou músicas de arquibancada (que eu saiba) fazendop sarcasmo com o fato. Sem dúvida é um sintoma bastante evidente do fenômeno que aponto no início deste artigo.
Lembrei aqui alguns episódios, mas o leitor pode e deve utilizar a área de comentários com outras provocações que tenham me passado despercebidas. São tempo que, infelizmente, talvez não vejamos mais nos estádios brasileiros - a ordem é todo mundo ficar quietinho, sentado em seus lugares. Que fique claro que não sou contra a setorização dos estádios a fim de atrair diversos tipos de público - voltarei ao tema.
Mas está se matando a cultura dos estádios.


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